
Há pessoas que possuem o dom da oratória como se fosse uma ferramenta de precisão. Chegam com uma apresentação impecável, o aperto de mão firme e uma pasta repleta de "mundos e fundos" que, à primeira vista, parecem a solução para todos os problemas de uma organização. No universo das ONGs e do terceiro setor, onde a carência de recursos é uma constante, esses personagens encontram o terreno fértil para semear promessas que nunca pretendem colher.
Certa vez, cruzou o nosso caminho um desses "captadores de recursos". Ele não vendia apenas projetos; vendia esperança embrulhada em papel celofane. Com um vocabulário técnico rebuscado e um carisma magnético, ele nos apresentou planos grandiosos. Acreditamos. Afinal, a boa-fé é o combustível de quem trabalha pelo bem comum. Contudo, o tempo — esse senhor implacável da verdade — começou a passar, e o que eram projetos sólidos transformaram-se em falácias etéreas.
O ápice do seu jogo de manipulação ocorreu de forma irônica e cruel. Ao ser confrontado por uma terceira pessoa, alguém que ele já havia decepcionado e enganado anteriormente, ele não recuou nem se desculpou. Pelo contrário: usou a própria vítima como escudo. Utilizou as palavras de indignação dessa pessoa para justificar a sua própria desistência em nos ajudar. O argumento era tão absurdo quanto cínico: alegou que, por conhecermos quem ele havia enganado, o vínculo de confiança estava quebrado — por nossa parte, não dá dele.
É uma tática clássica do estelionato emocional e profissional: inverter a culpa para sair de cena com uma falsa superioridade moral.
Infelizmente, a vida nos apresenta esses contrastes de forma abrupta. Enquanto uns carregam o caráter como um alicerce inabalável, outros parecem ser completamente desprovidos de qualquer bússola ética. Seguem adiante, trocando de cenário e de público, buscando novos incautos para ludibriar com a mesma facilidade com que trocam de camisa.
Fica a lição, amarga, mas necessária: a apresentação pode ser boa e o papo pode ser fluído, mas o caráter é o único projeto que não se pode falsificar a longo prazo. No fim, quem engana pode até ganhar o momento, mas perde a única coisa que o dinheiro e a lábia não compram: a paz de quem tem a consciência limpa.
Altair Marinheiro
Teólogo e Criador de Conteúdos


